Foodle Reviews
GRAUS DE LIBERDADE
Inquieto e com alma de artista. Paco Morales escolheu a cozinha, mas poderia seguramente ter escolhido qualquer outra forma de arte.
Esteve no El Bulli da fase alta. No Mugaritz da fase alta também. Abriu restaurantes, ganhou estrelas. Fechou e voltou a abrir. Cozinheiro e restaurador, gestor do seu próprio negócio, teve a coragem de abrir o Noor em Córdoba. Num tempo e destino improváveis. Quando se fizer a retrospectiva honesta da restauração espanhola da primeira... More
GRAUS DE LIBERDADE
Inquieto e com alma de artista. Paco Morales escolheu a cozinha, mas poderia seguramente ter escolhido qualquer outra forma de arte.
Esteve no El Bulli da fase alta. No Mugaritz da fase alta também. Abriu restaurantes, ganhou estrelas. Fechou e voltou a abrir. Cozinheiro e restaurador, gestor do seu próprio negócio, teve a coragem de abrir o Noor em Córdoba. Num tempo e destino improváveis. Quando se fizer a retrospectiva honesta da restauração espanhola da primeira metade do século XXI, Morales terá um lugar maior.
Quando o Noor abriu, em 2016, recriação livre da cozinha Al-Andalus, não foi o conceito histórico, per se, que interessou Paco. O desafio era outro. Cozinhar com poucos graus de liberdade — sem ingredientes do Novo Mundo — potenciando a criatividade. Isso, e ser capaz de chegar à terceira estrela.
Hoje parece evidente. Mas, há dez anos, estar sentado praticamente dentro da cozinha, com tudo a acontecer diante de nós, era inovação. A cozinha podia ser performance.
E a Paco, uma vez mais, mais do que recriar uma época, interessava o confronto entre diferentes dimensões da cozinha. Entre a arte visual. A experiência. E a arte performativa da hospitalidade.
As restrições nunca foram um limite. Foram sempre a matéria-prima da liberdade. Obsessivo e genial, Paco e Paola chegaram com mérito à terceira estrela. Mesmo que, para isso, qual Fausto, tenham domado a sua irreverência. E colocado no prato alguns dos cânones que a Michelin continua a premiar.
E depois da terceira estrela, qual o desafio?
Inquieto, com alma de artista e agora mentor. A oportunidade de juntar Paco Morales a Filipe Carvalho no JNcQUOI Table não estava apenas no que acontecia no prato, mas na capacidade de Paco de desafiar o talento de Filipe. De provocar o seu espírito crítico. De o obrigar a encontrar a sua identidade.
Em Portugal há uma geração de enorme talento para quem o verdadeiro desafio já não é cozinhar melhor. É deixar de copiar e pensar pela própria cabeça.
A identidade é o Santo Graal. Less
A BARRA E O MAR
Quem já se sentou a uma mesa do Filipe Carvalho sabe que ele professa aquilo a que gosto de chamar de cozinha “no bullshit”. Pouca conversa fiada. Directa ao assunto.
O JNCQUOI Table é corolário dessa assertividade. Na barra de dez lugares importa o prazer do cliente. É o regresso, sem medo, aos tempos da grande cozinha hedonista.
No Table o storytelling são duas linhas e fica literalmente à porta.
Não há cartões antes de cada prato.
Não há jogos pelo meio... More
A BARRA E O MAR
Quem já se sentou a uma mesa do Filipe Carvalho sabe que ele professa aquilo a que gosto de chamar de cozinha “no bullshit”. Pouca conversa fiada. Directa ao assunto.
O JNCQUOI Table é corolário dessa assertividade. Na barra de dez lugares importa o prazer do cliente. É o regresso, sem medo, aos tempos da grande cozinha hedonista.
No Table o storytelling são duas linhas e fica literalmente à porta.
Não há cartões antes de cada prato.
Não há jogos pelo meio do menu.
Não há álbuns de memória do chefe.
Não há trovas nem cantigas de amor aos fornecedores.
Aqui trata-se de comer.
E beber.
Muito bem.
A cozinha do Table é rigor, sabor, produto. E bom gosto. Alta cozinha — aqui não simplesmente como chavão — navegando com segurança entre a matriz francesa e espanhola de Filipe Carvalho e o produto nacional. Produto do mar, mas, por vezes, o barco dá um salto a terra.
Já seriam atributos suficientes para prender o interesse de qualquer alma gastronomicamente avisada. Mas acontece que no Table Filipe Carvalho propõe-se resolver a quadratura do círculo dos restaurantes de fine dining em Portugal. Porque há graus de liberdade e não haverá amarras a um menu de degustação fixo. Rejubilemos, portanto. Um restaurante de fine dining onde o cliente volta a ter voz.
O Table é uma oportunidade rara para perceber como funciona uma brigada. E para descobrir, afinal, o que faz um chefe. Aqui o chefe é um maestro multifuncional. Prova. Controla tempos. Envia ondas mentais às sondas que vigiam o ponto do peixe. Finaliza. Junta-se a nós para apresentar os pratos. Com aquele ar rigoroso, omnipresente e bonacheirão que nos faz, quase automaticamente, sentir em casa. No Table o chefe de cozinha brilha alto. E o outro talentoso Filipe — Wang —, vai ter de lutar por minutos onde também ele e os seus vinhos possam, merecidamente, brilhar.
Neste momento, a cumprir as obrigações Michelin da praxe — caviar, trufa, carabineiro, etcetera — o Table vai ser um óbvio candidato a duas estrelas Michelin. Sim. Directas.
Evoluindo e acrescentando risco e criatividade à sua cozinha, este restaurante vai tornar-se rapidamente um projecto de alta cozinha único em Portugal. Less
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Address
Av. da Liberdade 189 2, 1250-096 Lisboa, Portugal
Hours
Tuesday: 19:00 - 21:00
Wednesday: 19:00 - 21:00
Thursday: 19:00 - 21:00
Friday: 19:00 - 21:00
Saturday: 19:00 - 21:00
Sunday: Closed
Price Range
Based on country average
$$$$ (€50+)
Website
https://www.jncquoihouse.com/en/food-drinks/jncquoi-table/36/
