- maiakovski_ maiakovski_ added a new meal Dinner at Ocean Restaurant at Ocean
OCEANO PACÍFICO
A entronização dos chefes deixa na sombra aqueles que têm nas mãos o poder de elevar ou desfazer uma noite. A boa hospitalidade faz esquecer pratos menos inspirados. O contrário nunca acontece. No Ocean, a equipa de sala tem Igor Levit a tocar Brahms, enquanto Christian Thielemann dirige a Filarmónica de Viena. Nos últimos anos,... More
OCEANO PACÍFICO
A entronização dos chefes deixa na sombra aqueles que têm nas mãos o poder de elevar ou desfazer uma noite. A boa hospitalidade faz esquecer pratos menos inspirados. O contrário nunca acontece. No Ocean, a equipa de sala tem Igor Levit a tocar Brahms, enquanto Christian Thielemann dirige a Filarmónica de Viena. Nos últimos anos, raramente encontrei uma equipa com esta finesse. Nelson Marreiros e João Wiborg são tipos discretos, jogadores de equipa, cheios de classe.
Depois de anos de cozinha internacional e duas estrelas Michelin, Hans Neuner e o agora ausente Márcio Baltazar, voltaram-se para Portugal e para a diáspora. Um novo estímulo para a sua cozinha e storytelling. À procura do caminho para a terceira estrela.
O menu desta primavera foi de alto nível, técnica meticulosa, acidez corajosa. Menu mundano, de clara influência asiática, que poderia estar em qualquer fine dining holandês. Ou em Marbella. É preciso esforço para vislumbrar algum traço de cozinha portuguesa — ou da diáspora — que tanto nos insistem em contar. Provo uma longa coletânea de sucessos, a pedir depuração, cujo fio condutor é um storytelling cansado.
Onde vejo falhas, outros exultam.
Para a revista austríaca Falstaff, “Neuner is considered the best chef in Portugal” … “because he cooks more typical dishes than many of the locals.”
Não é coisa pouca.
A Falstaff prossegue, a olhar para o Portugal-dos-pequeninos com aquela visão caricatural e mente microscópica de colonizador que, entre um copo de champagne e meio frango da Guia, nos tira estatisticamente a pinta: “Home cooking was hardly valued in Portugal back then. It is thanks to Neuner that this has changed.”
No Ocean sobra em talento o que lhe falta em visão antropológica. Não é por sairmos de barco com pescadores, nem por cruzar o país de Harley, que se entende Portugal. Há vida para lá dos lugares-comuns. Aqui já se cozinhava antes do livro da Infanta. No Ocean assentará bem a terceira estrela. Mas entre capulanas, gadgets kitsch, loiças exóticas, ukuleles, balões, excesso, sobra pouco para o que sai da cozinha. A memória fica na sala. Onde a hospitalidade supera o prato. Less
