GARBANZO VERDE IS THE NEW PICHÓN
A finitude é parte integrante da grandeza. Todos os restaurantes devem ter um fim. O de Tohqa chega, em grande, a 13 de outubro de 2025.
Samuel Beckett, maestro do falhanço, sabia-o bem. “Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better.” Falhou em vida e em morte. Com a frase sequestrada pela geração dos startupeiros e estampada em t-shirts e posters motivacionais, ao estilo autoajuda barata. Na impossibilidade de vencer, ainda assim temos a obrigação de continuar.
Eduardo Pérez, mestre da brasa, também escolheu o mesmo caminho. Pioneiro, foi Josh Niland antes de Josh Niland. Os seus despieces de pescado são épicos, a sofisticação com que trabalha a morena, notável. Criou a alta cozinha de paisano: a brasa e os caldos, ao serviço dos verdadeiros produtos de luxo. O al andalus renasceu. Dos garbanzos verdes do pai — tantas vezes copiados por aí — à ousadia de transformar em luxo os ingredientes simples e próximos: coração de atum, cebola, tomate, batata, codium.
Como a pedra tosca da albariza, Tohqa não era forma, era conteúdo. Espírito musical entre o dub e o flamenco, Edu serpenteia pela cozinha enquanto os perfumes de ervas aromáticas secas de El Saucejo marcam o ritmo swingado do peixe.
Al calor de la candela, foi péssimo gestor de food cost e magnânimo no menu: entregava sempre demais. Não por gula, mas por generosidade. Bipolar: simultaneamente cozinha de coração e intelecto. Genial: numa Espanha de cozinha cada vez mais previsível, onde a consistência é desculpa para a falta de criatividade, Edu é um espírito libertário, inconformado, iconoclasta. O seu trabalho foi sempre conceptual, artístico, livre de convenções. Os outros repetem, ele cria durante o happening. Tohqa foi cozinha direta, com riscos, fenomenológica: uma experiência subjetiva, desenhada a partir da relação entre produtos simples e de proximidade, e o cliente. Mais do que o resultado, importou o processo — o risco, o instante, o aqui e agora.
Tohqa fecha este mês. Foi bela a festa durante estes anos. Longe de um epitáfio, é um até já. O rei morreu. Viva o rei.
“… you must go on. I can’t go on. I’ll go on.”
